quinta-feira, 12 de agosto de 2010

XIX Semana do Tempo Comum – Memória de Santa Clara - Mt 18, 15-20

Nos primeiros versículos deste pequeno trecho do Evangelho, Jesus indica como a caridade deve conduzir as relações entre os homens, mesmo quando um ofende o outro. É a chamada correção fraterna.

O Senhor nos pede a delicadeza com o irmão, mesmo quando este peca contra nós, ofende-nos de alguma maneira. Devemos lembrar que, por maior que seja a ofensa de que somos vítimas, sempre somos nós os que mais ofendemos a Deus. E Ele não nos trata conforme exigem as nossas faltas. Da mesma forma devemos agir em relação a quem nos ofende, perdoando como Deus nos perdoa.

É preciso procurar o irmão para corrigi-lo, para que fiquemos todos em paz uns com os outros e para que ele não torne a pecar. Mas esse primeiro movimento na direção do irmão deve ser em particular, a sós, para que ele não se sinta exposto ou humilhado. Se isso não surtir efeito e a pessoa permanece no erro, então se pode buscar uma ou duas pessoas que tenham testemunhado o fato para tentar convencê-lo da verdade sem expô-lo demasiadamente.

Somente aí, se o ofensor não se convence de seu erro, pode-se recorrer à comunidade, à Igreja. E só então, se ele permanecer obstinado, é que se pode deixá-lo à sua sorte.

Pois o objetivo da correção fraterna é, em primeiro lugar, reconduzir a pessoa à verdade, para que não se perca por causa de sua pertinácia no erro. E, depois, proteger a comunidade, para que não se percam muitos pelo erro de um só.

Depois de dizer essas coisas, o Senhor acentua a força e o poder que concede à Sua Igreja e o imenso valor da oração em comunidade, a importância de rezarmos uns pelos outros e todos juntos.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

XIX Semana do Tempo Comum – Jo 12, 24-26 – Festa de São Lourenço, diácono e mártir


Quando Jesus fala do grão de trigo, pensamos sempre que se refere a Si mesmo, pois Ele é, por excelência, o grão de trigo que morre – na Cruz – e produz muito fruto – fruto de Vida eterna, a Redenção dos homens.
Logo em seguida, porém, vemos que o Senhor deseja que apliquemos esta comparação também a nós. Pois dá uma regra aos discípulos: o apego a esta vida, aos bens, ao mundo, faz perder a vida eu realmente importa, a Vida eterna. O desapego desta vida, ou seja, o uso da vida e das coisas presentes para servir a Deus antes que a si mesmo, isso é o que faz ganhar a verdadeira Vida.
Seguir Jesus, servi-lO, é isto: fazer o que Ele fez. E o que Jesus fez? Desapegou-se de Si mesmo (cf. Fl 2, 2-11), fez-Se homem, tomou a Sua Cruz, morreu por nossos pecados e ressuscitou para nossa justificação.
Se alguém, pois, quer servir ao Senhor, vai segui-lO até a Cruz. E o Pai, que honrou o Filho colocando todas as coisas debaixo de Seus pés (cf. 1Cor 15,27-28), honrará também o Seu discípulo. Pois, "se com Ele morremos, com Ele viveremos" (cfe. 2Tm 2, 11-12) a Vida eterna.

(do site http://www.evangelhoquotidiano.org)
Santo Agostinho (354-430), Bispo de Hipona (Norte de África) e Doutor da Igreja
Sermão 305
«Onde Eu estiver, aí estará também o Meu servo»

A vossa fé reconhece, meus irmãos, este grão lançado à terra, este grão que a morte multiplicou. A vossa fé reconhece-O porque Ele habita nos vossos corações. Nenhum cristão hesita em crer no que Cristo disse acerca de Si próprio. Mas, uma vez que este grão morreu e se multiplicou, muitos outros grãos foram lançados à terra. São Lourenço é um deles, e celebramos hoje o dia em que ele foi semeado. Vemos que colheita imensa despontou de todos estes grãos espalhados por toda a terra, e este espectáculo enche-nos de alegria, pelo menos a nós os que, pela graça de Deus, pertencemos ao seu celeiro.
Porque nem toda a colheita entra no celeiro: a mesma chuva, útil e fértil, faz crescer o bom grão e a palha, mas não se armazenam os dois no celeiro. Para nós, agora é o tempo de escolher. [...] Portanto, ouvi, grãos consagrados, porque não duvido de que estejais aqui em grande número. [...] Ouvi-me, ou antes, ouvi em mim Aquele a Quem primeiro se chamou bom grão. Não ameis a vossa vida neste mundo. Se amais realmente a vossa vida, não ameis a vida deste mundo, e então salvareis a vossa vida [...] «O que ama a sua vida neste mundo perdê-la-á.» É o bom grão que o diz, o grão que foi lançado à terra e que morreu para dar muito fruto. Ouvi-O, porque Ele faz o que diz. Ele instrui-nos e mostra-nos o caminho através do Seu exemplo.
Cristo não Se prendeu à vida deste mundo; Ele veio ao mundo para Se despojar de Si próprio, para dar a Sua vida e a retomar quando quisesse. [...] Ele é o verdadeiro Deus, este homem verdadeiro, homem sem pecado que veio tirar o pecado do mundo, revestido de um poder tão grande, que pôde dizer verdadeiramente sobre a Sua vida: «Ninguém Ma tira, mas sou Eu que a ofereço livremente. Tenho poder de a oferecer e poder de a retomar. Tal é o encargo que recebi de Meu Pai» (Jo 10, 18).

sábado, 7 de agosto de 2010

XVII Semana do Tempo Comum – Mt 17, 14-20


Para Deus alguma coisa é impossível? Então, por que não cremos? O poder de Deus não é limitado. Tudo está ao alcance de Deus, que tudo criou e tudo governa e que encaminha todas as coisas para o seu fim, para a finalidade para a qual as criou.
Nós, porém, não cremos.
E que motivos temos para não crer? Muitos dizem: "Deus não me atende". Outros argumentam: "eu procurei servir a Deus, rezar muito, ajudar o próximo e, mesmo assim, em troca só recebo dificuldades e sofrimentos".
Aos primeiros é preciso responder: Deus não nos dá tudo o que Lhe pedimos, mas somente aquilo que for bom e conveniente para a nossa salvação. Ainda que não Lhe peçamos, Ele nos dará (ou permitirá que nos aconteça) tudo – alegrias e sofrimentos, paz e tribulações – em vista do nosso maior bem, que é a vida eterna em seu Reino, a felicidade perfeita e que jamais termina.
Aos que contrapõe que servem a Deus, rezam muito e fazem o bem ao outros, é preciso dizer que nada do que fizermos torna Deus nosso devedor. Pelo contrário, pois Ele nos criou livremente, por pura bondade; nos mantém na existência; e nos deu a salvação por meio de Seu Filho, Jesus Cristo. Não estamos em posição de negociar com Deus, pois os únicos devedores somos nós.
Sendo assim, tudo o que fizermos, façamo-lo gratuitamente, por amor a Deus e aos irmãos, como retribuição e prova de nossa gratidão por tudo quanto Ele fez e faz por nós.
E entreguemo-nos com fé e confiança à Sua Divina Providência, que em tudo e por meio de tudo promove o nosso bem.
 
Comentário feito por São Tomás Moro (1478-1535), estadista inglês, mártir
Dialog of Comfort against Tribulation (a partir da trad. de Ecrits des saints, Soleil Levant, pp. 23-24)
 
«Eu creio! Ajuda a minha pouca fé!» (Mc 9, 24)
 
«Senhor, aumenta a nossa fé» (cf. Lc 17, 5). Meditemos nas palavras de Cristo e convençamo-nos de que, se não permitíssemos que a nossa fé se tornasse morna ou mesmo que esfriasse, que perdesse a força, dispersando os nossos pensamentos em futilidades, deixaríamos de dar importância às coisas do mundo e concentrá-la-íamos num cantinho da nossa alma.
Então semeá-la-íamos como se fosse um grão de mostarda no jardim do nosso coração, depois de ter arrancado de lá todas as ervas daninhas, e o rebento cresceria. Com uma firme confiança na palavra de Deus, levantaríamos uma montanha de aflições, ao passo que, se a nossa fé for vacilante, nem sequer conseguirá mover um montinho de terra. Para terminar esta conversa, dir-vos-ei que, visto que todo o conforto espiritual pressupõe uma base de fé, e que mais ninguém a pode conceder senão Deus, nunca devemos cessar de lha pedir.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

XVIII Semana do Tempo Comum - Mt 15, 21-28

Uma mulher, naquele tempo, já não era considerada grande coisa... Ainda por cima, nem israelita era, mas cananeia, ou seja, uma estrangeira. E os estrangeiros eram comparados aos cães.
Jesus parece cruel, trata mal a mulher, ignora-a primeiro e depois humilha-a. Mas Ele tinha um motivo: queria ver até onde iria o amor daquela mulher pela filha e, principalmente, até onde iria a sua fé. Não só, mas com suas atitudes em relação à mulher, aparentemente duras, Jesus vai aprofundando a fé da cananeia até o abandono total, para dar-lhe a cura da filha juntamente com o dom de uma fé madura e forte.
Pois a cada negativa de Jesus, menos a mulher cananeia confiava em si, em sua situação ou em suas qualidades ou possibilidades e mais acreditava em Jesus e em seu poder. E adquiria, por isso mesmo, aquela ousadia que somente pode vir naqueles que se sabem pequenos diante de Deus, a ousadia que nasce da verdadeira humildade.
Eis o segredo da mulher cananeia: sua resposta, ousada e profundamente humilde ao mesmo tempo, agrada tanto ao Senhor que o "derrota". Que argumentos teria ainda o Senhor todo-poderoso diante de uma tal afirmação de insignificância? Porque reconhece o seu "nada", a mulher recebe de Deus "tudo".
Seja assim também conosco, aprendamos a reconhecer a verdade: Deus é o nosso Criador e nós não passamos de criaturas. Deus, nosso Senhor, nos tem em suas mãos. Ele é quem nos dá a existência. Se, por um brevíssimo instante, Deus parasse de pensar em nós, cessaríamos de existir, como se jamais tivéssemos estado neste mundo. O que somos, pois, diante de Deus? Nada. Ele, no entanto, nos ama a tal ponto que veio ao mundo para entregar-se por nós (Jo 3, 16) e dar-nos a vida eterna. E faz tudo isso de forma gratuita, pois, se nada somos, nada podemos dar-Lhe.
O reconhecimento da verdade, que é a verdadeira humildade, agrada muito ao Coração de nosso Deus. Sejamos, pois, reconhecidos e gratos ao Senhor, procurando ter nEle uma fé humilde, madura e forte como a da cananeia.


(do site http://www.evangelhoquotidiano.org)
Comentário ao Evangelho do dia feito por Jean Tauler (c. 1300-1361), dominicano
Sermão 9 (a partir da trad. Cerf 1979, t. 1, p. 36)


«Mulher, grande é a tua fé!»


«Senhor, Filho de David, tem misericórdia de mim!» É um apelo de uma força imensa. [...] É um gemido que vem como que de uma profundeza sem fim. Ele ultrapassa em muito a natureza e é o próprio Espírito Santo que deve proferir em nós esse gemido (Rom 8, 26). [...] Mas Jesus diz-lhe: «Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel». [...] Ora, que faz ela assim acossada? [...] Penetra ainda mais profundamente no abismo. Prostrando-se e humilhando-se, mantém a confiança e diz: «É verdade, Senhor, mas até os cachorros comem as migalhas que caem da mesa dos seus donos.»
Ah! Se também pudésseis penetrar assim tão verdadeiramente no fundo da verdade, não através de comentários sábios, palavras complexas ou mesmo dos sentidos, mas no fundo de vós mesmos! Nem Deus nem qualquer criatura conseguiria desprezar-vos, aniquilar-vos, se permanecêsseis na verdade, na humildade confiante. Poderiam sujeitar-vos a afrontas, ao desprezo e a recusas grosseiras, que vós iríeis perseverar, iríeis insistir, animados por uma total confiança, e iríeis aumentar sempre o vosso zelo. É disto que tudo depende, e aquele que chega a este ponto é bem sucedido. Apenas estes caminhos conduzem, na verdade e sem qualquer estação intermédia, a Deus. Mas permanecer assim nesta grande humildade, com perseverança, com uma segurança total e verdadeira como esta pobre mulher o fez, são poucos os que conseguem.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

XVIII Semana do Tempo Comum - Mt 14, 22-36

Jesus manda que os discípulos sigam para o outro lado do mar, enquanto Ele fica a sós com o Pai, no monte, em oração, até muito tarde. Enquanto isso, a noite chega, o vento começa a soprar contra a barca e esta é agitada pelas ondas. E os discípulos lutam sozinhos, na escuridão, contra o vento e as ondas.
Não é assim que acontece conosco? Não é assim com a Igreja inteira, em tantos séculos de história? Jesus parece ter ido embora - subiu ao Céu e está à direita do Pai - e nós lutamos sozinhos as lutas de cada dia e sofremos, com a Igreja, a perseguição contínua.
No entanto, Ele está junto do Pai intercedendo por nós. E prometeu que estaria conosco "todos os dias, até o fim do mundo" (cfe. Mt 28,20). Por isso, deve-nos encher de confiança a palavra do Senhor para nós, hoje:  "Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!" Porque Jesus é o Senhor de todo o universo. Tanto é assim, que o vento se acalmou logo que Ele subiu na barca, com Pedro.
Confiemos, pois, e não temamos. Ainda que o vento nos seja contrário e as ondas sacudam a barca, Ele virá ao nosso encontro. E, se estivermos com Pedro (hoje, para nós, Bento XVI) quando Jesus chegar, podemos ter a certeza de estarmos na barca que não se afundará, porque vento, ondas e "as portas do inferno não prevalecerão contra ela" (cfe. Mt 16, 18).
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