terça-feira, 18 de dezembro de 2012

O Sonho de São José

III Semana do Tempo do Advento, terça-feira antes do dia 24/12
Mt 1, 18-24


O Senhor cuida dos Seus, de todos aqueles que Lhe pertencem. Cuidou de Maria, escolhida para ser a Mãe do Salvador, para que nada lhe acontecesse de mal. Mas, aqui, cuidou especialmente de José, que "era justo", para que não lhe faltassem os meios, ainda que extraordinários, para discernir a Vontade de Deus a seu respeito e cumpri-la, colocando-a em prática, como já fizera por toda sua vida.
Quando, pois, os acontecimentos superavam o entendimento e as forças de José, Deus veio em seu socorro por meio do anjo, em um sonho. E José, fiel servidor do Senhor, agiu conforme lhe havia sido revelado da parte de Deus.
O Senhor sempre vem em socorro dos que O amam, os que desejam de todo o coração servi-lO, com sinceridade e humildade. Deus é fiel e nunca deixa os Seus entregues à própria sorte.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

"E a virtude do Senhor o levava a curar"

II Semana do Tempo do Advento, segunda-feira
Lc 5, 17-26


Nosso Senhor tem compaixão de nós e não lhe é indiferente aquilo que nos faz sofrer, tanto na alma como no corpo. O Seu ensinamento era alimento para a alma de quantos O escutavam, mas a alguns era preciso curar também o corpo, para que a paralisia física não impedisse a alma de correr livremente para Deus, para amá-lO e servi-lO.
Tal era a condição daquele paralítico. Tão profunda era a sua paralisia, que sequer podia, por si mesmo, pedir ao Senhor sua própria cura. Tão inerte estava sua alma, que sequer era capaz de gritar e de clamar a Deus por socorro. Precisava, pois, de amigos que o fizessem em seu lugar. E quanto amor demonstraram esses amigos, que chegaram a remover um telhado para levar aquele homem paralítico a Jesus!
Por causa do amor e da imensa fé de seus amigos, o Senhor perdoa-lhe os pecados, realizando nele a cura mais importante: a cura da alma, que jazia paralisada e presa pelo pecado. A cura do corpo, essa veio depois, como um sinal para os que duvidavam da autoridade e do poder de Jesus.
No entanto, que importante a intercessão dos amigos do ex-paralítico, curado por causa do amor e da fé que eles provaram ter! Que importante orarmos uns pelos outros e colocarmos a todos os que necessitam na presença de Jesus, para que Ele os cure! Quantos "telhados" não devemos mover para que isso aconteça...! Quantos milagres podemos obter do Senhor, se Lhe demonstrarmos o mesmo amor por nossos irmãos e a mesma confiança nEle...!
Hoje ainda a virtude do Senhor O leva a curar. Mostremos a Ele, Jesus, a nossa fé e o nosso amor, movendo céus e terra por aqueles que necessitam de nós para irem até o Senhor, para estarem diante dEle, porque já não podem fazê-lo sozinhos.

sábado, 8 de dezembro de 2012

"Eis aqui a escrava do Senhor"

Solenidade da Imaculada Conceição de Maria
Lc 1, 26-38


Ela é especial, mas não sabia disso quando foi visitada pelo Arcanjo Gabriel. Quando, então, terá efetivamente compreendido as maravilhas que nela fez o Senhor? Talvez, apenas no Céu. Enquanto viveu neste mundo, Maria "guardava todas essas coisas e as meditava em seu coração".
Perturbou-se porque um anjo foi ao seu encontro, porque ignorava que ela mesma é a Rainha dos anjos, a Rainha do Céu e da terra. Perturbou-se porque foi chamada "cheia de graça" pelo mensageiro celeste, enquanto via a si mesma como nada mais do que "a escrava do Senhor".
A perturbação, porém, não paralisou Maria. De imediato, ela colocou-se inteiramente disponível à Vontade de Deus a seu respeito.
Não perguntou porque e nem tentou "negociar" com o anjo. Apenas quis saber como, pois não via ao seu alcance os meio humanos necessários para o que lhe estava sendo anunciado da parte do Senhor. Ao ouvir que tudo viria do poder de Deus, tranquilizou-se e disse o seu "fiat".
O "fiat" de Deus criou o universo. O "fiat" de Maria deu lugar à nova criação realizada por seu Filho Jesus Cristo, nosso Deus e Senhor.
É preciso que também nós a chamemos bem-aventurada, porque grandes coisas fez por meio de Maria Aquele que é poderoso e cujo Nome é santo!

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

"Levantai-vos e erguei a cabeça"

XXXIV Semana do Tempo Comum, quinta-feira
Lc 21, 20-28


Assim como padeceu a Cabeça, do mesmo modo deve padecer todo o Corpo e cada um de seus membros. Pois "o discípulo não está acima do Mestre, nem o servo acima do seu Senhor" (Mt 10, 24).
Como Nosso Senhor Jesus Cristo sofreu a Paixão e a Morte, para então ressuscitar, assim deve acontecer com a Igreja, que é o Seu Corpo, e com todos e cada um de nós, que somos os seus membros.
A Igreja só chegará à plenitude da glória que lhe está reservada como Esposa imaculada de Cristo depois que sofrer o aniquilamento e a aparente derrota, tal como aconteceu ao seu Esposo e Senhor.
Nenhum de nós, membros de Cristo, poderá participar do banquete das eternas núpcias do Cordeiro (cf. Ap 19, 9) se não tiver, antes, participado de Sua Cruz e lavado as vestes (purificado a alma) em Seu Sangue.
A perseguição por causa da fé, a tribulação causada pelos que nos odeiam porque pertencemos a Cristo, isso tudo nos deve atingir para que possamos ser testemunhas (mártires) de Seu Nome até os confins da terra e até o fim dos tempos.
No entanto, temos um consolo e uma certeza: o Senhor virá "com grande poder e glória". Por isso, as dificuldades que nos são anunciadas não nos devem amedrontar, mas alegrar-nos, porque Ele, Jesus, é o vencedor do mundo (cf. Jo 16, 33). A nossa libertação das amarras deste mundo está próxima! E tudo o que tivermos sofrido por causa do Nome do Senhor será motivo de grande alegria para nós!

sábado, 24 de novembro de 2012

"Todos vivem para Ele"

XXXIII Semana do Tempo Comum, sábado
Memória dos mártires vietnamitas Santo André Dung-Lac, sacerdote, e seus companheiros
Lc 20, 27-40

A morte não é um cessar da existência. Separam-se a alma e o corpo, rompe-se a unidade de que somos feitos, como consequência última do pecado de nossos primeiros pais, que corrompeu a nossa natureza.
Mas se o corpo se desfaz até tornar-se pó, para ressuscitar somente no dia do Juízo Universal, a alma - imortal - já segue para o seu destino eterno, depois de comparecer perante o Senhor, Juiz justo e misericordioso, naquilo que se chama Juízo Particular.
Quando, então, saímos desta vida (a qual vivemos em corpo e alma) já passamos para as realidades eternas (seja o Céu ou o Inferno, a salvação ou a condenação eternas), embora não as vivamos em plenitude, porque a alma estará ainda à espera do corpo, que se lhe vai juntar novamente no último dia.
Nosso Senhor alerta, pois, que as realidades últimas superam em muito as desta vida e que não podemos supor que o Céu é uma vida igual a que temos na terra, apenas sem sofrimento, ou que o Inferno é apenas uma versão piorada daquilo que já conhecemos aqui.
Quem pensa no Céu com anjinhos sentados em nuvens com harpas nas mãos (monótono, chato) ou no Inferno como o retratam alguns comerciais de televisão (divertido e prazeroso), não só debocha de nosso destino final como tem dele uma visão infantil. Pensar assim é o mesmo que dizer que o que somos e experimentamos nesta vida não tem nenhuma consequência.
Pelo contrário: aquilo que fazemos de nós mesmos na terra será a nossa vida para sempre, seja no Céu, seja no Inferno. E depende de nossa própria escolha.
Quanto mais plenamente amarmos a Deus nesta vida, mais plena e perfeitamente felizes seremos com Ele no Céu, porque teremos atingido o fim para o qual fomos criados, que é a participação na felicidade perfeita de nosso Criador.
E quanto mais radicalmente rejeitarmos a Deus nesta vida, mais odiaremos e sofreremos no Inferno, onde não há (e nem pode haver) nenhum bem e nada que seja bom - apenas ódio, dor, angústia e desespero completos. Estaremos vivendo o absurdo e o vazio de uma existência sem sentido e fracassada, que virou as costas a seu Senhor, por quem e para quem se vive.
Recebemos de Deus o presente, a dádiva de uma vida transitória, na qual podemos construir, edificar, semear o que seremos em definitivo, na eternidade.
Aproveitemos esse tempo que nos é dado, sem desperdiçá-lo com fantasias pueris que só servem para a ilusão de uma fuga inútil da realidade que, a cada dia, se aproxima mais de nós.
***

Catecismo da Igreja Católica, número 996 a 1000

Desde o início que a fé cristã na ressurreição tem sido alvo de incompreensões e oposições. «Não há nenhum outro tema da fé cristã que seja objecto de mais contradição do que a ressurreição da carne» (Santo Agostinho). É muito comumente aceite que, após a morte, a vida da pessoa humana continue de forma espiritual. Mas como acreditar que este corpo tão manifestamente mortal possa ressuscitar para a vida eterna?
O que é «ressuscitar»? Na morte, a separação da alma e do corpo, o corpo do homem entra em corrupção enquanto a sua alma vai ao encontro de Deus, ficando à espera de ser reunida com o seu corpo glorificado. Deus Todo-Poderoso dará definitivamente a vida incorruptível ao nosso corpo, unindo-o à nossa alma através do poder da ressurreição de Jesus.
Quem ressuscitará? Todos os homens que morreram: «Os que tiverem praticado boas obras sairão, ressuscitando para a vida, e os que tiverem praticado o mal hão-de ressuscitar para a condenação» (Jo 5,29).
Como? Cristo ressuscitou com o Seu próprio corpo: «Vede as Minhas mãos e os Meus pés; sou Eu mesmo» (Lc 24,39); mas Ele não regressou a uma vida terrena. Do mesmo modo, n' Ele «todos ressurgirão com o próprio corpo que têm agora» (Concílio de Latrão IV), mas esse corpo será «tornado conforme ao Seu corpo glorioso» (Fl 3,21), um «corpo espiritual» (1Co 15,44). «Mas dirá alguém: Como ressuscitam os mortos? Com que espécie de corpo voltam eles? Insensato! O que semeias não toma vida se primeiro não morrer. E o que semeias não é o corpo que há-de vir, mas um simples grão de trigo, por exemplo. [...] Semeia-se na corrupção e ressuscita-se na incorrupção [...]; os mortos ressuscitarão incorruptíveis. [...] É necessário que este corpo corruptível se revista de incorruptibilidade, e que este corpo mortal se revista de imortalidade» (1Cor 15,35-53). Este «como» ultrapassa a nossa imaginação e a nossa compreensão; só é acessível pela fé. Mas a nossa participação na Eucaristia dá-nos já um antegosto da transfiguração do nosso corpo por Cristo: «Assim como o pão que vem da terra, depois de ter recebido a invocação de Deus, não é mais pão comum mas Eucaristia, constituída por duas realidades, uma terrena e a outra celeste, da mesma forma o nosso corpo que participa da Eucaristia deixa de ser corruptível, pois têm a esperança da ressurreição» (Santo Irineu).
Quando? Definitivamente, «no último dia» (Jo 6,39-40), «no fim do mundo». Com efeito, a ressurreição dos mortos está intimamente associada à Parusia (segunda vinda) de Cristo.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

"Não reconheceste o tempo em que foste visitada"

XXXIII Semana do Tempo Comum, quinta-feira
Memória de Santa Cecília, virgem e mártir
Lc 19, 41-44


Essa mesma cidade, Jerusalém, sobre a qual Jesus chora e lamenta, seria destruída pouco tempo depois, no ano 70 d.C., pelas legiões romanas. O imperador cansara-se daquele povo sempre rebelde e mandou destruir sua cidade sagrada e seu templo, dispersando-os pela face da terra (essa dispersão dos judeus ficou conhecida como diáspora).
Jerusalém, na pessoa dos sumo-sacerdotes e mestres da lei, não reconhece Jesus como o Messias prometido a Israel e rejeita-O. Em consequência disso, é deixada à própria sorte e acaba por ser destruída. Tudo o que restou do Templo de Jerusalém, glória e esplendor da cidade de então, foi um muro, que hoje conhecemos por Muro das Lamentações.
Mas o que fala o Senhor a respeito de Jerusalém - "não deixarão em ti pedra sobre pedra (...) porque não reconheceste o tempo em que foste visitada" - não poderia aplicar-se também a nós e a nossas vidas?
Porque muitas vezes o Senhor nos visita e de muitos modos. Talvez, mais frequentemente, pela dor, para que recorramos a Ele, reconhecendo a nossa impotência, a nossa pequenez, abatendo nosso orgulho e reconhecendo nossa condição de criaturas diante do Criador, em tudo dependentes dEle.
Como diz o Senhor, diante da cidade de Jerusalém, Ele é o único que nos pode trazer a paz. Se não O reconhecemos quando nos visita, se O rejeitamos, que paz podemos esperar? O que nos aguarda, senão o mesmo destino da cidade de Jerusalém?
O Senhor Jesus vem visitar-nos, incansavelmente, durante o tempo que nos é dado viver, para que O reconheçamos. Ele espera e deseja o nosso amor. E certamente não quer chorar sobre nós.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

"Jesus parou e mandou que levassem o cego até Ele"

XXXIII Semana do Tempo Comum, segunda-feira
Memória de São Roque González, Santo Afonso Rodriguez e São João Del Castillo, sacerdotes e mártires
Lc 18, 35-43


Era só um cego "sentado à beira do caminho, pedindo esmolas". Só um cego mendigo, um ninguém. Alguém que só podia ouvir o ruído da multidão, mas era incapaz de acompanhá-la para saber o que acontecia. Alguém à margem da vida, que não tinha nenhuma importância.
Mas, por causa desse ninguém, Jesus parou. Podia ter seguido o Seu caminho, mas interrompeu-o porque ouviu os apelos, mais ainda, escutou o clamor daquele cego e teve compaixão.
Assim como esse cego, estávamos todos nós: à beira do caminho da verdadeira Vida e incapazes de tomar o rumo que conduz a ela, porque não podíamos ver. Como diz um dos prefácios eucarísticos, "perdidos e incapazes de Vos encontrar".
Mas, ao passar por onde estávamos, o Senhor, que sempre esteve perto de nós, teve compaixão. Escutou nosso clamor e restitui-nos a visão. Agora podemos ver o Caminho, que é Ele mesmo, segui-lO e louvá-lO como fez o cego curado, até chegar ao Seu Reino, nos Céus.
Se ainda alguns sentem-se à margem da estrada, sem poder ver, basta que clamem ao Senhor que passa. Se o fizerem com todo o coração, Ele certamente vai parar para perguntar-lhes: "o que queres que Eu faça por ti?"

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

"E os outros, onde estão?"

XXXII Semana do Tempo Comum, quarta-feira
Lc 17, 11-19


Parece estranho que somente um, entre os dez leprosos, se dê conta de ter ficado curado. Mais ainda quando se pode ver claramente que todos acreditaram na palavra de Jesus - que os mandou apresentarem-se ao sacerdote para a comprovação da cura - antes que fosse, de fato, curados.
Sim, todos pediram a compaixão de Deus. E todos tiveram fé em Sua palavra. Mas o reconhecimento e a gratidão, que são próprios da humildade, somente um deles demonstrou. E precisamente este recebeu também a cura da alma, ficando livre de seus pecados, porque amou o Senhor e "o amor cobre uma multidão de pecados".
Quem de nós é como este leproso, considerado ainda menos do que os outros, porque além de leproso era samaritano e, portanto, duas vezes maldito?
Nosso Senhor, por outro lado, não tem quaisquer obrigações para conosco (como não tinha para com os leprosos que a Ele recorreram em seu infortúnio). Não nos deve absolutamente nada. Pelo contrário, nós é que Lhe somos devedores: criou-nos, redimiu-nos e concede-nos muitíssimas graças, generosa e continuamente, sustentando nossa frágil existência e dando-nos a esperança do Céu.
Se não somos - a maioria de nós - leprosos no corpo, certamente todos o somos na alma. Somos portadores de uma lepra muito mais grave, que é o pecado.
Por causa disso, o que sofremos é justo. Saibamos, pois, ser reconhecidos e gratos ao Senhor, que nos cura e salva, por pura bondade, sem mérito algum de nossa parte.


Comentário feito por São Bruno de Segni (1045-1123), bispo

Purificados da lepra do pecado

«Enquanto iam a caminho ficaram purificados.» É preciso que os pecadores ouçam estas palavras e façam um esforço para as compreender. É fácil ao Senhor perdoar os pecados. Com efeito, o pecador é muitas vezes perdoado antes de ir ter com o sacerdote. Na realidade, fica curado no próprio momento em que se arrepende; qualquer que seja o momento em que se converte, passa da morte para a vida. [...] Que se lembre, porém, de que conversão se trata. E que escute o que diz o Senhor: «Mas agora, ainda, convertei-vos a Mim de todo o vosso coração, com jejuns, com lágrimas e com gemidos. Rasgai os vossos corações e não as vossas vestes.» (Jl 2,12ss) Qualquer conversão deve, portanto, efetuar-se no coração.
«Um deles, vendo-se curado, voltou, glorificando a Deus em voz alta.» Na realidade, este homem representa todos aqueles que foram purificados pelas águas do batismo ou curados pelo sacramento da penitência. Eles já não seguem o demônio mas imitam a Cristo, caminham atrás d'Ele glorificando-O e dando-Lhe graças e não deixam o Seu serviço. [...] «Jesus diz: 'Levanta-te e vai; a tua fé salvou-te'.» Grande é pois o poder da fé, pois «sem fé é impossível agradar a Deus» (Heb 11,6). «Abraão teve fé em Deus e isso foi-lhe tido em conta de justiça» (Rm 4,3). É, portanto, a fé que salva, a fé que justifica, a fé que cura o homem na sua alma e no seu corpo.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

"Somos servos inúteis..."

XXXII Semana do Tempo Comum, terça-feira
Lc 17, 7-10


Não nos julgamos, nós, os senhores de nossas vidas? Não agimos como se Deus nos devesse favores? Não ousamos levantar os olhos para o Céu pedindo contas a Deus daquilo que acontece a nós e aos outros, como se não tivéssemos qualquer responsabilidade, como se não tivéssemos livre-arbítrio, como se não escolhêssemos agir contra a Vontade de Deus com más consequências para nós e para os demais?
Quem somos nós para pedirmos satisfações a Deus? Não passamos de meras criaturas, a quem Deus livremente, por pura bondade, criou para sermos felizes partilhando de Sua Vida bem-aventurada. Nossa felicidade está, pois, em servir a Deus.
Enquanto olharmos para nós mesmos como senhores, não podemos ser felizes. Porque, diante de Deus, ninguém é senhor. Jesus Cristo é o único Senhor. Ele, no entanto, rebaixou-Se a servir-nos (cf. Fl 2, 2-11).
Coloquemo-nos, pois, diante de Deus como servos que somos e busquemos fazer, em tudo e unicamente, a Sua Vontade. Não teremos feito mais do que nossa obrigação, mas Ele, porque é bom, nos recompensará com a felicidade verdadeira e sem fim.



Do Evangelho Quotidiano

De Santo Agostinho (354-430), bispo de Hipona (África), doutor da Igreja

O serviço humilde

Antes da vinda do Senhor Jesus, os homens gloriavam-se de si próprios. Ele veio como homem para que diminuísse a glória do homem e crescesse a glória de Deus. Porque Ele veio sem pecado e nos encontrou a todos pecadores. Se Ele veio para perdoar os pecados, é porque Deus é misericordioso: compete ao homem reconhecê-lo. Porque a humildade do homem está nesse reconhecimento, e a grandeza de Deus na sua misericórdia.
Se Ele veio perdoar ao homem os seus pecados, que o homem tome consciência da sua pequenez e de que Deus exerce a Sua misericórdia. «Ele deve crescer e eu diminuir» (Jo 3,30). Ou seja: é necessário que Ele dê e que eu receba; que Ele tenha a glória e que eu a reconheça. Que o homem entenda qual é o seu lugar, que reconheça Deus e escute o que o apóstolo Paulo diz ao homem soberbo e orgulhoso que pretendia superiorizar-se: «Que tens tu que não hajas recebido? E, se o recebeste, porque te glorias como se não o tivesses recebido?» (1 Cor 4,7). Que o homem que queria chamar seu ao que não era dele compreenda pois que o recebeu e se faça pequenino, porque é bom para ele que Deus seja glorificado nele. Que se diminua pois em si mesmo, para que Deus cresça nele.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

"Se teu irmão pecar, repreende-o..."

XXXII Semana do Tempo Comum, segunda-feira
Memória de São Josafá, bispo e mártir
Lc 17, 1-6

É muito comum lermos ou escutarmos reflexões a respeito deste trecho do Evangelho segundo Lucas que tratam apenas do aspecto do perdão - ilimitado e condicionado apenas ao arrependimento. Muito importante, sem dúvida.
Mas é preciso lembrar que o Senhor, antes de falar do perdão, ensina sobre a gravidade do escândalo e, logo em seguida, sublinha a necessidade da correção fraterna, através da repreensão.
Sabermos dimensionar a gravidade do escândalo é muito importante, hoje em dia, pois parece que esquecemos de proteger os mais fracos na fé desse mal tão grande. As ovelhinhas do rebanho do Senhor são expostas, para que se proteja e até mesmo se oculte os pecados dos pastores.
Os que estão colocados à frente da comunidade causam um grande mal quando não são repreendidos, quando se compactua com os seus erros e pecados.
A repreensão, porém, é a expressão máxima da caridade, pois é através dela que as pessoas podem dar-se conta do quanto ofenderam ao Senhor e prejudicaram a Igreja. E, nesse movimento de compreensão do mal causado, podem cair em si, arrepender-se e voltar atrás em seus passos, como o filho pródigo quando resolve dizer ao pai: "pequei contra o Céu e contra ti". Porque é apenas o arrependimento que dá espaço ao perdão e ao retorno à Casa do Pai.
Deus está sempre disposto a perdoar e ensina-nos a fazer o mesmo - abrir-nos ilimitadamente ao perdão. Mas perdoar não significa tolerar o mal ou deixar de corrigir. Pelo contrário: como expressão de amor, o perdão exige o arrependimento, para que o ofensor converta-se de seu pecado e pare de fazer mal a si mesmo e aos outros.
Nosso Senhor não minimizou o impacto do escândalo. Afirmou, pelo contrário, que seria melhor afogar aquele que produz escândalo, antes que fosse capaz de fazê-lo. É uma afirmação dura, mas necessária, por amor dos pequeninos.
Portanto, se o Senhor não quis ser tolerante e nem proteger os que causam escândalos, não sejamos nós a fazê-lo, pelo bem da Igreja. Movidos por uma verdadeira e ardente caridade, exerçamos também a repreensão, a correção fraterna que o Senhor nos exige.

domingo, 11 de novembro de 2012

Ninguém ofereceu mais do que ela...

XXXII Domingo do Tempo Comum
Mc 12, 38-44


A viúva - pobre e desvalida - é a imagem da humanidade. O que é o homem senão uma criatura fraca, frágil, insegura, que vive e se debate em meio a realidades que não pode compreender e dar quais, conforme lhe concede a graça, não tem senão um vislumbre?
Como eram as pobres viúvas no antigo Israel, assim é a humanidade - a imagem do desamparo. Aquelas dependiam da caridade alheia e, se ninguém as socorresse, só lhes restava esperar a morte. A humanidade, escravizada pelo pecado, submetida ao jugo do demônio, só podia esperar a condenação eterna.
Mas Deus compadeceu-se de nós, Suas pobres criaturas, e enviou-nos o Seu Filho, para libertar-nos do inimigo que nos subjugava e salvar-nos da morte eterna, devolvendo-nos a esperança.
O coração daquela pobre viúva agradou a Deus porque, ao dar tudo o que tinha - tão pouco, fez dEle a sua única esperança e entregou-se inteiramente em Suas mãos. Ela acreditou que tudo o que lhe vinha da parte de Deus era bom e justo.
A humanidade, todos nós, somos como esta pobre viúva. Cumpre reconhecermos a nossa condição de indigência. O que podemos, de fato, dar a Deus? Ainda que lhe entreguemos tudo, será como estas duas moedas sem valor depositadas pela viúva no tesouro do templo. Não somos e nem temos nada que possa ter algum valor diante de Deus. No entanto, é exatamente isto o que Ele deseja (e não se contentará com menos): que Lhe demos tudo o que somos e temos, colocando somente nEle a nossa confiança e fazendo dEle a nossa única esperança.
Se quisermos agradar o Coração de Deus, não reservemos nada para nós.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

"Começou a louvar a Deus"

XXX Semana do Tempo Comum, segunda-feira
Lc 13, 10-17


A mulher estava fisicamente doente, mas a sua doença aprisionava-lhe a alma. Uma vez curada, conta-nos São Lucas, ela "imediatamente... começou a louvar a Deus".
Seu coração estava cheio de fé, mesmo depois de anos e anos de terrível sofrimento físico e, certamente, de enorme sofrimento moral que aquela deficiência física lhe causava. Por isso, o Senhor compadeceu-se dela e libertou-a do espírito maligno que a amarrava e a impedia de derramar o seu coração diante de Deus.
Mas que mesquinho era o coração do chefe da sinagoga!... Não se importava com a liberdade de uma filha de Abraão, mas com o cumprimento legalista da observância sabática - que, em si, deveria ser sinal do amor e da obediência a Deus.
Pois este amor e esta obediência evidenciam-se justamente na cura da mulher, como mostra o Senhor na comparação com os bois e jumentos que devem beber água, mesmo em dia de sábado. Se a atenção às necessidades primárias de sobrevivência de animais não ofende a Deus, então o alívio do sofrimento de uma filha de Deus deve, com mais razão, glorificá-lO. E isto é manifesto no louvor que brota dos lábios da mulher, imediatamente à sua cura.
Quando virmos os sinais da misericórdia de Deus na vida de nossos irmãos, não sejamos mesquinhos como o chefe da sinagoga, para não terminarmos envergonhados e identificados como inimigos de Jesus. Alegremo-nos, como verdadeiro Povo de Deus, com as maravilhas que o Senhor continua operando!

sábado, 27 de outubro de 2012

"Pode ser que venha a dar fruto..."

XXIX Semana do Tempo Comum, sábado
Lc 13, 1-9


O que somos todos nós, senão essa figueira estéril, que inutiliza a terra sem dar os frutos que o Senhor da vinha espera?
Para nós se dirige a advertência do Senhor: "se não vos converterdes, ireis morrer". E aqui, certamente, nosso Senhor não se refere à morte corporal, mas à condenação eterna.
Mas, então, o que podemos fazer?
Nosso Senhor é o vinhateiro que pede ao dono da vinha - o Pai - que lhe permita tomar providências para que a figueira estéril - nós - possa dar frutos. Ele coloca o adubo da Sua graça e obtém para nós - por Sua Paixão, Morte e Ressurreição - um tempo de conversão, para que voltemos o nosso coração a Deus.
Devemos, portanto, aproveitar o tempo que nos é dado - esta vida - no qual o Senhor nos concede generosa e abundantemente todas as graças de que necessitamos para que sejamos salvos. Neste tempo, devemos voltar para Deus, produzindo frutos de verdadeira conversão.
Ao final de nossa vida terrena seremos examinados quanto aos frutos que permitimos ao Amor de Deus produzir em nós: "pode ser que venha a dar fruto; se não der, Tu a cortarás".

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

"Não vim trazer paz, mas divisão"


XXIX Semana do Tempo Comum, quinta-feira
Memória de Santo Antônio Galvão, presbítero
Lc 12, 49-53


Jesus Cristo, nosso Senhor, nos é dado e posto como um sinal de contradição. Diante dEle, "revelam-se os pensamentos de muitos corações". Ninguém pode ficar neutro diante do Senhor: ou se coloca contra Ele, ou a Seu favor. Quem olha para Ele ama-O com todas as forças ou rejeita-O para sempre.
Pois o Senhor vem, entra em nossas vidas e cruza os nossos caminhos com um convite: "segue-Me". Mas, para segui-lO, é preciso negar-se a si mesmo, tomar a própria cruz cada dia, andar com Ele até o Calvário e com Ele morrer. Porque a ressurreição só pode vir depois da morte - e morte de cruz.
Quem ama o Senhor, abraça e ama a cruz. Aquele que rejeita a Jesus, precisamente o faz porque não deseja, ou teme, a cruz. Por isso não há unanimidade em torno de Jesus: Ele não nos veio oferecer conforto, nem resolver nossos problemas com um passe  de mágica. Abriu-nos, sim, o Reino dos Céus, dando-nos novamente acesso ao Pai. Mas pela cruz e com muita luta - "o Reino dos Céus sofre violência e violentos são os que dele tomam posse".
Peçamos, hoje e sempre, a intercessão de Maria, sempre Virgem, Mãe de Deus e Senhora nossa, para que o Espírito Santo acenda e inflame nossos corações com o fogo do Seu Amor e nos torne dispostos e capazes de ser batizados com o batismo que o Senhor recebeu: a cruz, sinal de amor e de misericórdia.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Muito mais será exigido!

XXIX Semana do Tempo Comum, quarta-feira
Lc 12, 39-48

Palavras duras do Senhor, sem dúvida, aos Seus sacerdotes e bispos, que devem "dar comida a todos na hora certa", porque foram colocados "à frente do pessoal de Sua casa" e precisam guardar o rebanho que lhes foi confiado.
São palavras que nos devem recordar a obrigação que temos, como Povo de Deus, de sustentar com nossas orações, jejuns e súplicas constantes aos ministros ordenados, porque deles "muito mais será exigido".
Mas, quanto à tarefa de evangelização confiada ao testemunho leigo no mundo, não estamos livres das exigências do Senhor. E há a responsabilidade de cada um quanto à sua família, amigos, colegas de estudo e de trabalho, pessoas com quem convivemos e para as quais devemos ser "sal da terra e luz do mundo". Portanto, naquilo que nos cabe, também somos administradores da casa do Senhor.
Dentro da hierarquia do Corpo Místico de Cristo - a Igreja, a cada um é dada uma parcela, maior ou menor, de responsabilidade, pela qual haverá de prestar contas.
Sejamos todos, pois, cada um dentro do que lhe compete, administradores fieis e prudentes.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

"... praticar isso sem deixar de lado aquilo"

XXVIII Semana do Tempo Comum, quarta-feira
Memória de Santo Inácio de Antioquia, bispo e mártir
Lc 11, 42-46


O que é mais importante? "A justiça e o amor de Deus". Mas pagar o dízimo, para o sustento da casa do Senhor, e observar os demais preceitos da Lei de Deus, isso também é importante.
Nosso Senhor critica o legalismo farisaico, vazio de amor e de fé verdadeiros, que faz da observância da Lei de Deus um mero ritualismo, crendo que o cumprimento dos preceitos é suficiente, ainda que o amor de Deus e o desejo de uma verdadeira conversão estejam ausentes.
Então, o que Deus espera de nós? Não quer que cumpramos os Seus Mandamentos? Certamente que sim. Mas não foi o próprio Senhor que resumiu toda a Lei e os Profetas no amor de Deus sobre todas as coisas e no amor ao próximo como a nós mesmos? É preciso, pois, cumprir os Mandamentos, mas fundamentar isso na verdadeira conversão do coração a Deus. Porque, conforme as palavras do salmo: "um coração contrito e humilde, ó Deus, tu não desprezas".
Se nos apresentarmos diante do Senhor como perfeitos cumpridores de Sua Lei, Ele poderá, talvez, responder-nos como ao jovem (rico de muitas coisas, mas ainda pobre para Deus): "uma só coisa te falta"... E, quem sabe, isso que nos falta seja exatamente o mais importante: dar-Lhe por inteiro um coração cheio de amor.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

"Esta geração é má"

XXVIII Semana do Tempo Comum, segunda-feira
Memória de Santa Teresa de Jesus, carmelita, virgem e doutora da Igreja
Lc 11, 29-32

O que significa o fato de a Rainha do Sul ter vindo de uma terra distante para ouvir a sabedoria de Salomão? Ou o fato de os ninivitas se haverem convertido ao ouvirem a pregação do profeta Jonas?
Talvez sejam indicativos do desejo e da busca ativa da verdade, que não mede esforços e vence todas as distâncias para chegar até ela. Talvez mostre a honestidade de quem, ouvindo a verdade e reconhecendo-a, curva-se perante ela, abrindo-lhe o coração e a vida.
Em todo o caso, estes exemplos, narrados pelo Senhor no Evangelho, apontam para nós, que não queremos, de modo geral, conhecer a verdade. Importa-nos o que é conveniente, o que contribui para nosso maior conforto, ainda que não seja verdadeiro e que contribua para permanecermos no erro.
No entanto, ainda que sejamos uma geração má, o Senhor não nos nega um sinal da verdade. Diz que nos será dado o sinal do profeta Jonas. Pois, à semelhança de Jonas, que esteve por três dias e noites no ventre de uma baleia, para ser reconduzido até a praia de onde deveria partir e cumprir, enfim, a vontade de Deus a seu respeito, também Jesus Cristo, nosso Senhor, esteve por três dias em poder da morte, até que ela já não pode mais retê-lo.
Enfim, foi-nos dado um sinal, para que possamos reconhecer a Verdade sempre que ela se nos apresenta: Jesus Cristo, a Verdade, ressuscitou e está vivo para sempre!



sábado, 13 de outubro de 2012

Felizes os que ouvem a Palavra de Deus

XXVII Semana do Tempo Comum, sábado
Lc 11, 27-28


Quem é feliz, em primeiro lugar, senão Maria, a humilde serva do Senhor (cf. Lc 1, 38)? Quem mais do que ela ouviu a Palavra de Deus e a pôs em prática?
Não foi, de outro modo, o que disse Isabel a respeito de Maria, quando foi por ela visitada? Feliz aquela que acreditou, pois o que lhe foi dito da parte do Senhor será cumprido (Lc 1, 45). É o que canta ela mesma, em seu cântico de louvor ao Senhor: doravante as gerações todas me chamarão bem-aventurada, pois o Todo-poderoso fez grandes coisas em meu favor (Lc 1, 48).
Não podemos ler as palavras do Evangelho de hoje como reprovação ou ofensa à Maria, da parte de Jesus, mas engrandecimento.
O que o Senhor faz, em primeiro lugar, é restaurar a ordem das coisas, colocando em seu devido lugar o vínculo biológico. Em primeiro plano, de modo superior, deve estar o vínculo espiritual. Pois a felicidade de Maria, Senhora nossa, não consiste em ter dado à luz ao Salvador; antes de tudo, Maria é feliz porque ouviu da parte de Deus a Sua Vontade a seu respeito e, em tudo e de modo perfeito, obedeceu.
Tendo-se colocado como serva, escrava do Senhor, foi exaltada acima de todas as criaturas por Aquele que depõe os poderosos de seus tronos e eleva os humildes (cf. Lc 1, 52). Por isso todos nós cumprimos a profecia do Magnificat quando dizemos, com alegria e com justiça: Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto de teu ventre, Jesus (cf. Lc 1, 42).

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

"... os trabalhadores são poucos"

Memória de São Francisco de Assis, diácono

XXVI Semana do Tempo Comum, quinta-feira
Lc 10, 1-12

Por que são poucos os trabalhadores da messe?
Porque muitos são chamados, mas, dentre esses, são também muitos os que não escutam a Voz de Deus que os chama, porque os ruídos de suas vidas e do mundo gritam mais alto em seus corações.
Porque muitos são chamados, mas, dentre os que atendem os apelos do Senhor, nem todos são fieis e nem todos perseveram na obediência à Voz amorosa de Deus que os interpela.
Porque muitos são chamados ao amor da entrega total, mas poucos são os que, de verdade, lutam com todas as suas forças para amar assim.
Porque são poucos os que têm coragem para atender ao apelo insistente e incansável do Senhor para amá-lO e, por causa do Seu Amor, cuidar com zelo e dedicação da parcela do rebanho de Deus que lhes for confiada.
Esses poucos, porém, brilham como as estrelas do céu e são os amados do Senhor.
Rezemos para que Deus nos dê muitos e santos sacerdotes, capazes de amar com o Amor do Coração de Cristo!

sábado, 15 de setembro de 2012

Sua Mãe estava de pé junto à Cruz

Memória de Nossa Senhora das Dores
Jo 19, 25-27


A Virgem Santíssima - a Virgem das Dores - acompanha seu Filho até a cruz. E o evangelista João (o discípulo que Jesus amava), que está a seu lado, descreve como ela se faz presente ao sofrimento do Senhor: "de pé, junto da cruz de Jesus, estavam Sua Mãe e a irmã de Sua Mãe". Pequeno detalhe que, no entanto, revela muito do coração e da alma de Maria.
Ela está diante do próprio Filho pregado à cruz. As representações do Senhor crucificado que vemos, hoje, em nossas igrejas, não dizem um mínimo do que era em realidade esse triste espetáculo montado e dirigido pela crueldade humana.
Com os olhos do corpo, Maria enxergava um bolo disforme de carne e sangue, rodeado de moscas, que tremia, sufocava e soltava gemidos quase incompreensíveis quando tentava falar. Mas, com os olhos do coração, ela via Jesus, seu Filho amado e seu Deus, inocente, sofrendo dores indizíveis no corpo e, mais ainda, na alma. 
Um tal espetáculo, para qualquer mãe, seria insuportável. Maria, porém, permanece de pé diante de seu Filho crucificado. Não é dobrada pela dor, não se entrega ao desespero ou à angústia. Como respondera ao Arcanjo Gabriel no momento da anunciação, ela continua sendo, também e principalmente ali, a escrava do Senhor. Diante da cruz de Jesus, em silêncio, trespassada pela espada de dor que lhe fora predita por Simeão tantos anos antes (Lc 2, 33-35), Maria pronuncia definitivamente o seu fiat - "faça-se em mim segundo a tua palavra" (Lc 1, 38).
A cruz do Senhor não diminui, em Maria, a fé ou a esperança. Antes, aumenta-as. E torna-a perfeita no amor, como não houve ninguém antes ou depois dela, para lembrar das palavras de São Bernardo de Claraval. Mais do que Abraão, Maria esperou contra toda a humana esperança e recebeu de Deus a plena recompensa de sua confiança. Por isso, se Maria, diante da cruz de Jesus Cristo, é a Mãe das Dores, também é, no mesmo sentido, a Mãe da Esperança, como diz dela o Papa Bento XVI em sua encíclica Spe Salvi.
Quanto a nós, contemplemos hoje a "paixão" de Maria Santíssima diante da cruz do Senhor: sua dor imensa, sua fé, sua esperança e seu amor incomparáveis. Aprendamos dela a estar de pé diante da cruz de Jesus, para podermos carregar com amor, fé e esperança inquebrantáveis a cruz que nos cabe. E completarmos em nossa carne o que falta às tribulações de Cristo pelo Seu Corpo, que é a Igreja (cf. Cl 1, 24).

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

"Ai de vós, hipócritas!"

XXI Semana do Tempo Comum, segunda-feira
Mt 23, 13-22

Quantos se afastam do caminho do Reino de Deus, depois de se haver dele aproximado, por causa da nossa hipocrisia, nós, que somos membros da Igreja e que a apresentamos desfigurada aos homens? Colocamos à frente a Igreja a nossa própria imagem e queremos que os homens nos sigam a nós, antes que a Deus. Queremos que aprendam as nossas doutrinas, a nossa acomodação ao mundo. Queremos agradá-los, bajulá-los, fazê-los "sentir-se bem", mais do que levá-los à verdadeira conversão do coração. Queremos passar no concurso de popularidade, antes que apresentar a Verdade aos homens.
Não podendo, pois, ver a imagem da Igreja, Esposa imaculada de Cristo e resplandescente de beleza, porque a escondemos deles e lhes mostramos apenas a nossa imagem disforme, como podem amá-la e ao seu divino Esposo, Jesus Cristo, nosso Deus e Senhor?
Haveremos, pois, de prestar contar a Deus por todos aqueles que, tendo começado a andar na Verdade, por nossa culpa afastaram-se do Caminho do Reino dos Céus, porque não puderam ver o belo rosto da Igreja, mas a nossa face deformada que lhe apresentamos em seu lugar.
Se quisermos, de fato, levar os homens a Deus, devemos começar dispondo o nosso próprio coração à verdadeira conversão.

domingo, 26 de agosto de 2012

"Esta Palavra é dura..."

XXI Domingo do Tempo Comum
Jo 6, 60-69


Quando ressoa a voz da Igreja, quando o Papa e o Magistério falam, a primeira reação é sempre negativa, de crítica áspera e permeada de ironia cáustica. Reclamam da Igreja que deve "atualizar" o discurso, para atender às demandas do homem moderno. Que o conteúdo do discurso é conservador demais. Que se deveria voltar ao que Jesus Cristo realmente falou, Ele, que foi um "revolucionário".
Mas, de acordo com o Evangelho de hoje, a reclamação tem sido a mesma desde os tempos em que Jesus andava e pregava a Boa Nova pelas terras da Palestina. Pois o povo reunido em torno de Jesus na sinagoga de Cafarnaum, ao final de seu discurso sobre o Pão da Vida - Ele mesmo, dado em alimento na Eucaristia, sacramento de Seu Corpo e Sangue, afasta-se do Senhor dizendo que a Sua Palavra é dura e que é impossível ouvi-la (isto é, escutá-la e praticá-la).
Sim, de fato, Jesus é Deus feito homem e não veio habitar entre nós para falar amenidades. Ele veio trazer-nos a Vida imperecível, a Vida plena, a Vida em abundância. Veio fazer isto através de Sua Paixão, Morte e Ressurreição. E declara que quem quiser segui-lO, tornar-se Seu discípulo, deve negar-se a si mesmo, deve tomar a cada dia sua própria cruz. Não é, pois, um caminho fácil. Não é um caminho que agrade "à carne", isto é, à nossa mentalidade terrena, que descarta a perspectiva da eternidade e leva em conta apenas o que pertence a este mundo.
Por isso o Senhor é enfático ao afirmar que "o Espírito é que dá a vida" e que "a carne não serve para nada". Não é possível conformar a Palavra de Deus a nós e a nossos desejos e perspectivas mundanas; é o nosso coração que se deve conformar à Palavra. E só poderemos fazer isso se formos conduzidos pelo Espírito Santo. Pois a Palavra de Cristo é "Espírito e vida".
Jesus, hoje como naquele tempo, não adapta ou ameniza seu discurso para torná-lo mais agradável aos ouvidos dos que o escutam. Aos que reclamam que a voz da Igreja é retrógrada, impopular, conservadora demais para os nossos tempos, mais uma vez Nosso Senhor pergunta: "também vós quereis ir embora?"
Naquele tempo, a voz da Igreja foi a voz de Pedro: "A quem iríamos nós, Senhor? Só Tu tens palavras de vida eterna. E nós cremos firmemente e sabemos que Tu és o Santo de Deus". Hoje, a voz da Igreja é a voz do sucessor de Pedro, o Papa Bento XVI. Ele confirma a nossa fé e nos transmite com fidelidade a "dura" Palavra de Cristo, a única palavra de vida eterna.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Jesus viu Natanael


XX Semana do Tempo Comum, sexta-feira
Festa de São Bartolomeu, apóstolo
Jo 1, 45-51

Com nossos olhos modernos, imediatistas, de pouco alcance, que não enxergam para além do que é material, podemos pensar que Jesus apenas enxergou alguém que vinha ao Seu encontro, acompanhado ou levado por Filipe. Podemos nos limitar à compreensão de que Jesus viu Natanael (ou Bartolomeu) como veria qualquer outro passante.
Mas não é assim. O evangelista João sublinha por duas vezes que Jesus viu Natanael, uma delas com as palavras do próprio Senhor. Por qual motivo? Para fazer-nos compreender que o olhar de Jesus, para além do exterior e das aparências, vê a pessoa em profundidade, abarca a pessoa em sua totalidade: corpo e alma, mente e coração. O Senhor vê o homem por inteiro; mais ainda, só Ele "conhece o que há no homem".
Porque viu Natanael, Jesus sabe que seu coração não é mesquinho. Apesar de sua descrença inicial, fundada em critérios meramente humanos, ele está aberto às coisas de Deus, à manifestação de Sua Vontade e ao seu cumprimento.
Então, quando o Senhor lhe manifesta de modo mais ou menos sutil e velado a Sua divindade, Natanael imediatamente corresponde com uma bela profissão de fé, que permite a Jesus revelar-Se a ele ainda mais aberta e claramente.
Torne-se o nosso coração como o deste apóstolo - sem falsidade - e o Senhor não recusará revelar-Se também a nós.



São Bartolomeu - filho de Tholmai - é um dos doze apóstolos. Muitos o identificam com Natanael, mencionado no Evangelho segundo São João (Jo 1,45): "Jesus viu Natanael vindo até ele, e disse a seu respeito: 'Eis um verdadeiro israelita, em quem não há fraude'. Natanael exclamou: 'Rabi, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel'. Jesus respondeu-lhe: "Crês só porque te disse: 'Eu vi-te sob a figueira? Verás coisas maiores do que essas'".
Além de João, Mateus, Marcos, Lucas, os Atos dos Apóstolos referem-se a ele como um dos Doze. Uma antiga tradição armênia afirma que o apóstolo Bartolomeu, que era da Galileia, foi para a Índia.
Pregou àquele povo a verdade do Senhor Jesus segundo o Evangelho de São Mateus. Depois de, naquela região, ter convertido muitos a Cristo, sustentando não poucas fadigas e superando muitas dificuldades, passou para a Armênia Maior, onde levou a fé cristã ao rei Polímio, a sua esposa e a mais de doze cidades. Essas conversões, no entanto, provocaram uma enorme inveja nos sacerdotes locais, que, por meio do irmão do rei Polímio, conseguiram obter ordem para tirar a pele de Bartolomeu e depois decapitá-lo.


De Siluane (1866-1938), monge, santo das Igrejas ortodoxas - Escritos 

Depois da Ascensão do Senhor, os apóstolos voltaram, como está escrito no Evangelho, com uma grande alegria (Lc 24,52). O Senhor conhecia a alegria que lhes dava e a alma deles experimentou intensamente essa alegria. A sua primeira alegria foi conhecer o verdadeiro Senhor, Jesus Cristo; a segunda amá-Lo; a terceira conhecer a vida eterna e celeste; e a quarta alegria desejar a salvação para o mundo, tal como para si próprios. E, por fim, sentiram uma grande alegria por conhecerem o Espírito Santo e verem como operava neles.
Os apóstolos percorriam a terra e falavam ao povo do Senhor e do Reino dos Céus, mas a sua alma estava cheia de saudade e aspiravam a ver o Senhor. Era por isso que não temiam a morte, mas iam alegremente ao seu encontro; se desejavam viver na terra, era unicamente por amor aos homens. Os apóstolos amavam o Senhor e, assim, não temiam nenhuma tribulação. Amavam o Senhor, mas amavam também os homens, e esse amor tirava-lhes todo o receio. Não temiam nem as tribulações nem a morte, e foi por isso que o Senhor os enviou para o mundo, para iluminar os homens.
Ainda hoje, há pessoas de oração que experimentam esse amor divino e aspiram a ele dia e noite. Servem o mundo pela sua oração e pelo que escrevem. Mas essa tarefa compete sobretudo aos pastores da Igreja, que têm uma tão grande graça que, se os homens conseguissem ver o seu brilho, o mundo inteiro ficaria maravilhado. Mas o Senhor escondeu-o, para que os Seus servos não se encham de orgulho, mas se salvem na humildade.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

O Valor do Reino dos Céus

Festa de Santa Rosa de Lima, padroeira da América Latina
Mt 13, 44-46


Na vida de alguns, o Reino dos Céus representa um achado. Apresenta-se a eles, sem que, de fato, o tenham desejado ou procurado. Talvez, mesmo, sem que soubessem de sua existência.
Para estes, o encontro com o Reino dos Céus é como o encontro com um tesouro, que os enche de alegria e faz deixar tudo para terem a posse do Reino.
Para outros, porém, o Reino dos Céus é o desejo do coração e a sede da alma - a pérola mais preciosa. Estes buscam o Reino incessantemente, trabalham e afadigam-se por ele e não descansam até achá-lo.
Depois de terem empregado todas as suas forças, encontram finalmente o Reino dos Céus e entregam tudo o que possuem por causa dele.
O que há em comum entre os que encontram o Reino nas encruzilhadas da vida e os que empregam todos os seus esforços para encontrá-lo? É que, quando encontram o Reino dos Céus, fazem a mesma coisa: vão, vendem todos os seus bens e compram o campo onde está o tesouro ou a própria pérola.
Mas podem todos os bens de uma pessoa comprar o Reino dos Céus? Mesmo que dê a própria vida, isso não lhe seria possível. Em Jesus Cristo, porém, tudo o somos e temos adquire valor de eternidade. Se nos entregarmos inteiramente a Ele, tornando-nos Seus discípulos, sem nada reservar para nós mesmos,  então poderemos entrar na posse do Reino que Ele adquiriu para nós com o Seu Sangue derramado na Cruz.
Foi isso o que fez Santa Rosa de Lima, que hoje festejamos.
***

Do Evangelho Quotidiano:


Isabel Flores y de Oliva era o nome de baptismo de Santa Rosa de Lima que nasceu em 1586 em Lima, Peru. Os seus pais eram espanhois, que se haviam mudado para a rica colônia do Peru. O nome Rosa foi-lhe dado carinhosamente por uma empregada índia, Mariana, pois a mulher, maravilhada pela extraordinária beleza da menina, exclamou admirada: Você é bonita como uma rosa!
Levada à miséria com a sua família, ganhou a vida com duro trabalho da lavoura e costura, até alta noite. Aos vinte anos, ingressou na Ordem Terceira de São Francisco, pediu e obteve licença de fazer os votos religiosos em sua própria casa, como terceira dominicana. Construiu para si uma pequena cela no fundo do quintal da casa de seus pais. A cama era um saco de estopa, levando uma vida de austeridade, de mortificação, de abandono à vontade de Deus. Vivia em contínuo contacto com Deus, alcançando um alto grau de vida contemplativa e de experiência mística. Soube compreender em profundidade o mistério da paixão, morte de Jesus, completando na sua própria carne o que faltava à redenção de Cristo. Era muito caridosa e em especial com os índios e com os negros.
Todos os anos, na festa de São Bartolomeu, passava o dia inteiro em oração: "Este é o dia das minhas núpcias eternas", dizia. E foi exatamente assim. Morreu depois de grave enfermidade no dia 24 de agosto de 1617, com apenas 31 anos de idade.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

"Alegra-te, Cheia de Graça"

Memória de Nossa Senhora Rainha
Lc 1, 26-38

Associada à grande solenidade da Assunção de Nossa Senhora, que, no Brasil, comemoramos no último domingo, está a memória que hoje fazemos da coroação de Maria, a Virgem Santíssima, como Rainha do Céu e da terra. É a glorificação de Maria, a humilde serva do Senhor, levada por Deus ao Céu de corpo e alma e por seu Filho coroada!

"Alegra-te", diz o arcanjo Gabriel à Maria quando vai anunciar-lhe que será a Mãe do Salvador. Alegremo-nos hoje, todos, com ela!
Talvez, olhando para a realidade do mundo, pensemos que não há motivo para a alegria. No entanto, acima e além das coisas deste mundo que passa, nosso Deus e Senhor é vencedor! E a glorificação de Sua Mãe santíssima é um prenúncio de que também nós participaremos um dia de Sua vitória e seremos, como ela, glorificados.
Conforme disse o arcanjo: "Ele reinará para sempre (...) e o Seu Reino não terá fim". E acrescentou depois: "... para Deus nada é impossível".
Não percamos a esperança, apesar de toda dor e sofrimento, apesar das perseguições, apesar das inúmeras dificuldades que se colocam no caminho dos que queremos ser fieis discípulos de Jesus Cristo. Muitos e poderosos são os inimigos, neste mundo visível como no mundo invisível. A todos, porém, já os venceu Nosso Senhor. Façamos nossa, pois, a resposta de Maria ao arcanjo a ela enviado: "Eis aqui a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra".

***

"Foi pela Santíssima Virgem Maria que Jesus Cristo veio ao mundo e é também por Ela que deve reinar no mundo."

(São Luís Maria Grignion de Monfort, Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem)


sexta-feira, 17 de agosto de 2012

"Por Causa do Reino dos Céus"

XIX Semana do Tempo Comum, sexta-feira
Mt 19, 3-12


A aliança matrimonial é imagem da união entre Cristo e a Sua Igreja. Assim como o corpo e a cabeça não podem se separar, Cristo e a Igreja estão indissoluvelmente unidos. A esse nível de vínculo, indissolúvel, entre si e com Cristo, estão chamados os esposos quando se unem em matrimônio.
Mais ainda: a esse nível de vínculo são chamados aqueles que consagram suas vidas a Deus, quer pelo sacerdócio, quer pela vida religiosa. De tal modo devem estes estar unidos a Cristo, que já não lhes seja possível unir-se a qualquer outra pessoa humana, pois pertencem (ou são chamados a pertencer, entregando-se livremente) a Deus com um coração indiviso.


O celibato "por causa do Reino dos Céus" é sinal e reflexo, portanto, desse coração indiviso, chamado a amar a Deus com exclusividade e a amar a todos os homens por amor de seu único Senhor.
Nosso Senhor espera e pede corações virginais, puros, somente a Ele dedicados. Onde os encontrará? Quem responderá ao Seu chamado?
***

Sobre o celibato sacerdotal, leia também o excelente artigo publicado no site do Prof. Felipe Aquino.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

"Deixa que os mortos enterrem seus mortos"


XIII Semana do Tempo Comum
Mt 8, 18-22


No seguimento de Jesus Cristo não há descanso. O caminho é árduo e sempre ascendente. É preciso acompanhar Jesus nos três montes: o Tabor (transfiguração), o Calvário (crucifixão) e o monte da Ascensão. Nestes montes estão, respectivamente: a visão de Sua glória divina e o repouso nEle, Cristo; a dor da Paixão e a Morte, isto é, ser crucificado com Cristo e nEle morrer para si mesmo; o mandato de levar Seu Nome a todos, na certeza de Sua Presença e de Seu cuidado e amor para conosco.
Ainda mais: seguir o Senhor é deixar para trás a vida antiga, o amor às coisas que passam, os apegos e afetos deste mundo. Seguir o Senhor é abandonar tudo o que afasta dEle e amar a tudo e a todos nEle, com o coração livre, cheio da liberdade que só o Senhor dá e que permite possuir a tudo sem nada ter.
Depois de experimentar a intimidade com o Senhor, voltar à vida antiga e aos apegos deste mundo equivale a rejeitá-lO e abandoná-lO. Quem verdadeiramente conhece o Senhor experimenta, já nesta vida, uma antecipação do Céu e recebe dEle um sabor da Vida plena. Começa a compreender a caducidade do mundo e daquilo que é próprio do mundo. Não pode, pois, voltar ao que passa ("os mortos" de que fala Jesus) ou retornar aos antigos apegos do coração sem perder o que o Senhor lhe oferece.
O seguimento de Cristo exige um coração livre para amálO por inteiro e sem reservas, um coração que só a Ele pertença, que O coloque sempre em primeiro lugar e acima de tudo, que não deseje nada nem ninguém, senão a Ele, o Senhor.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Solenidade do Sagrado Coração de Jesus

Jo 19, 31-37

Eis o verdadeiro Cordeiro Pascal, do qual nenhum osso será quebrado. Jesus, nosso Senhor, já morto na cruz, continua a cumprir tudo quanto fora predito a Seu respeito no Antigo Testamento.
Olhando para o Senhor morto na cruz, mais ainda, contemplando-O e a tudo quanto sofreu por nós em Sua Paixão, podemos ver a realidade que, nas Escrituras, já se encontrava prefigurada, de modo especial na libertação do Povo de Israel da escravidão egípcia e na Ceia Pascal hebraica celebrada antes da saída para a Terra Prometida.
Contemplando o lado de Cristo traspassado, o Seu Coração aberto pela lança, vemos jorrar sangue e água, sinais dos sacramentos da Eucaristia e do Batismo, dos quais, de modo particular, nasce a vida para os fieis, o novo Povo de Deus, a Igreja. Eles são fonte de vida, de força e de unidade para a Igreja de Jesus Cristo. 
Esse Sangue e essa Água são fonte de vida e de misericórdia para todos nós. Adoremos, pois, hoje, o Senhor, que Se deu a nós com infinito Amor e, em Seu Coração, abre-nos os infinitos tesouros da Sabedoria e da Misericórdia divinas. Ninguém passe este dia sem beber desta fonte que jorra para a Vida eterna.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

"Sede o que vedes e recebei o que sois"

Solenidade do Corpo e Sangue do Senhor - Corpus Christi
Mc 14, 12-16.22-26


O Senhor se dá em alimento. Alimento para nossas vidas, para nossas almas, para nossa fé. Alimento de nosso amor.
A Eucaristia, Santíssimo Sacramento do Corpo e Sangue do Senhor, não é um símbolo, mas realidade. Depois da consagração, já não há mais pão nem vinho. Embora as espécies pareçam pão e vinho são, verdadeira e realmente, o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo, nosso Deus e Senhor.
Este é o alimento por excelência, que transforma quem O recebe nAquele que é recebido. Se, pois, O recebemos com as devidas disposições, isto é, com fé e amor e com o desejo de realmente amar e servir a Deus, Ele nos transformará, fazendo o nosso coração semelhante ao Seu. Pouco a pouco, em cada comunhão, nossa vontade e nosso alimento será fazer a Vontade do Pai, como é a Vontade do Senhor.

O que vedes no altar de Deus é o pão e o cálice: eis o que os olhos identificam. Mas a vossa fé quer ser instruída e saber que este pão é o corpo de Cristo, e que este cálice é o Seu sangue. O que se verbaliza numa fórmula breve, que pode bastar à fé. Mas a fé procura instruir-se. (...) Como pode este pão ser o Seu corpo, e este cálice, ou melhor, o seu conteúdo, ser o Seu sangue?
Irmãos, é isto que se designa por sacramentos: eles mostram uma realidade e, a partir dela, fazem-nos compreender outra realidade. O que vemos é uma aparência corporal, enquanto o que compreendemos é um fruto espiritual. Se quereis compreender o que é o corpo de Cristo, escutai o Apóstolo, que diz aos fiéis: "Vós sois o corpo de Cristo e cada um, pela sua parte, é um membro" (ICor 12,27). Logo, se sois corpo de Cristo e um dos Seus membros, é o vosso mistério que está sobre a mesa do Senhor, e é o vosso mistério que recebeis. A isto, que sois, respondeis: "Amen" e, com tal resposta, o subscreveis. Dizem-vos: "Corpo de Cristo", e vós respondeis: "Amen". Sede portanto membros do corpo de Cristo, para que este Amen seja verídico.
Por conseguinte, porque está o corpo no pão? Aqui, ainda, nada digamos sobre nós próprios, mas escutemos antes o Apóstolo que, ao falar deste sacramento, nos diz: "Uma vez que há um único pão, nós, embora muitos, somos um só corpo, porque todos participamos desse único pão" (ICor 10,17). Se compreenderdes estas palavras, estareis na alegria: unidade, verdade, piedade, caridade! "Um só pão": Quem é este pão único? "Um só corpo, nós que somos multidão". Lembrai-vos de que não se faz pão com um grão apenas, mas com muitos. Sede o que vedes, e recebei o que sois.
Santo Agostinho, bispo e doutor da Igreja


quarta-feira, 6 de junho de 2012

"Quando os mortos ressuscitarem (...) serão como os anjos do Céu"

IX Semana do Tempo Comum, quarta-feira
Mc 12, 18-27

Jesus, no Evangelho de hoje, é confrontado com a pergunta dos saduceus que, não crendo na ressurreição dos mortos e nas realidades espirituais, tentam deixá-lO sem resposta, mediante a comparação da vida definitiva com uma realidade terrena, como é o casamento.
O Senhor simplesmente afirma que Deus "não é Deus de mortos, mas de vivos" e que "quando os mortos ressuscitarem (...) serão como os anjos do Céu", portanto não mais casarão, porque as realidades terrenas passarão com esta vida perecível. E diz: "estais muito enganados".
Essa passagem levanta uma questão que frequentemente surge hoje: como é a vida depois da morte? Como é o Céu? E, apesar de quase ninguém mais acreditar em sua existência, como é o Inferno?
Sim, Céu e Inferno existem. São realidades espirituais perenes e definitivas. Mas, que visão temos do Céu? Entendemos que ele é uma cópia melhorada da nossa vida na terra? Ou, talvez, que é chato, monótono, cheio de anjos tocadores de harpas sentados sobre as nuvens? E, em contrapartida, que o Inferno é um lugar divertido, com festas eternas, em que todo tipo de sacanagem é permitida, sem nenhum desagrado, dor ou proibição? Que o Inferno é o lugar onde (apesar da flagrante contradição em termos) é proibido proibir?
Essas concepções a respeito do Céu e do Inferno são características de uma sociedade hedonista, voltada para o próprio umbigo e para o próprio prazer, escrava de seus sentimentalismos. Mas, não somente isso, são concepções limitadas e infantis a respeito de realidades espirituais que nos ultrapassam, uma vez que só conhecemos e enxergamos o que vivemos hoje, aquilo que é terreno e que, inexoravelmente, passa.
Embora nada saibamos de concreto sobre o Céu e do Inferno (e só saberemos quando chegarmos lá, mas então não nos será permitido voltar para dizer aos que ainda vivem esta vida na terra), temos a Palavra de Jesus nas Escrituras. Não somente no Evangelho de hoje, que compara os ressuscitados aos anjos do Céu (diz que serão como anjos, mas não que se tornarão anjos), mas em diversas outras passagens o Senhor se utiliza de diversas imagens e comparações para nos dar uma ideia de como será a vida após a morte. Compara, por exemplo, o Céu a um banquete, à festa de núpcias do Filho do Rei; ou compara o Inferno ao fogo que não se extingue, ao lugar onde haverá choro e ranger de dentes. Fala ainda do Céu como o lugar da alegria do Senhor e do Inferno como o lugar do tormento preparado para o diabo e seus anjos e para onde irão todos os que não O tiverem amado na pessoa dos irmãos.
Podemos ficar ainda com as palavras de São Paulo: "tenho para mim que os sofrimentos da presente vida não têm proporção alguma com a glória futura que nos deve ser manifestada" (Rm 8, 18) e "como está escrito: coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou (Is 64,4), tais são os bens que Deus preparou para aqueles que O amam" (ICor 2,9).
Deixemos, pois, de infantilismos. O diabo (sim, ele existe) conseguiu convencer a maior parte das pessoas que o Céu é chato e que o Inferno, se é que existe, é o lugar mais divertido e melhor para passar a eternidade. Ele, porém, é o pai da mentira. É o mercenário que vem para roubar, matar e destruir o rebanho do Senhor. Não quer a nossa salvação, mas a nossa perdição. Quer dar-nos o tormento eterno. Fiquemos com as palavras de Nosso Senhor, que veio morrer para nós, para que tenhamos a Vida junto dEle, que ressuscitou e está vivo!
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Do Evangelho Quotidiano:
O cristianismo não promete apenas a salvação da alma, algures no Além, onde todos os valores e as coisas preciosas deste mundo desapareceriam, como se se tratasse de um cenário que tivéssemos construído e que nessa altura desapareceria. O cristianismo promete a eternidade daquilo que se realizou nesta terra.
Deus conhece e ama este homem total que somos atualmente. Portanto, é imortal tudo aquilo que cresce e se desenvolve nesta nossa vida de agora. É através do nosso corpo que sofremos e amamos, que esperamos, que experimentamos a alegria e a tristeza, que progredimos ao longo do tempo. Tudo o que assim cresce na nossa vida presente, tudo isso é imperecível. É, pois, imperecível aquilo em que nos tornamos no nosso corpo, aquilo que cresceu e amadureceu no coração da nossa vida, em ligação com as coisas deste mundo. É o "homem total", tal como se situou neste mundo, tal como viveu e sofreu, que será um dia levado para a eternidade de Deus e que tomará parte, no seio do próprio Deus, na eternidade. Isto deve inundar-nos de uma alegria profunda.
Cardeal Joseph Ratzinger (Papa Bento XVI)

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Leia mais!
Sobre a intercessão dos santos e o purgatório: blog Porque Creio.
Sobre os santos, vivos no Céu: blog Baixada Católica.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

"... deixaram Jesus e foram-se embora"

IX Semana do Tempo Comum, segunda-feira
Mc 12, 1-12


Jesus fala aos sumo sacerdotes, aos mestres da lei e aos anciãos, isto é, às autoridades religiosas judaicas de Seu tempo em parábolas. Em outras situações, Jesus falou ao povo e aos Seus próprios discípulos em parábolas, mas eles não O entenderam. Neste discurso, porém, os destinatários de Jesus O entendem muito bem. O evangelista Marcos deixa isso claro ao final, quando diz: "... procuraram prender Jesus, pois compreenderam que havia contado a parábola para eles". E isso pode nos surpreender, pois se o Senhor falara para eles e eles O compreenderam, não deveriam ter feito um exame de consciência, assumido seus erros e pedido perdão, proclamando Jesus como seu Deus e Senhor, reconhecendo-o como o Messias prometido a Israel por Deus e tão esperado por todos? No entanto, procuraram prender Jesus...
Mas, afinal, não é isso mesmo o que fazemos todos nós? Quando Jesus nos fala no Evangelho, apontando os nossos erros, somos dóceis de coração para os reconhecermos, confessarmos os nossos pecados e pedir-Lhe perdão, a Ele, nosso Deus e Senhor? Quando Jesus nos fala pela voz da Igreja, não agimos como aqueles vinhateiros que não quiseram dar ao Dono da vinha o que lhe era de direito, mas, invés, bateram e mataram seus servos e, por fim, também mataram ao Seu Filho?
Pois o Dono da vinha é Deus Pai. Ele enviou seus servos, os profetas, mas o povo não lhes deu ouvidos e até mesmo perseguiu-os e matou-os. Por fim, enviou Seu Filho e eles O crucificaram. A nós, fala a Igreja e nela ressoa a Palavra de Deus, o Verbo que se fez carne e habitou entre nós. E nós? Também O crucificamos?
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"Cristo confiou-nos o mistério da reconciliação" (IICor 5,18). São Paulo realça a grandeza dos apóstolos ao mostrar-nos que mistério lhes foi confiado, ao mesmo tempo que manifesta com que amor Deus nos amou. Depois de os homens se terem recusado a ouvir Aquele que Ele lhes tinha enviado, Deus não fez soar a Sua cólera, nem os rejeitou, mas persiste em chamá-los, por Si próprio e através dos Apóstolos. (...) "Deus pôs na nossa boca a palavra da reconciliação" (v. 19). Viemos portanto, não para uma obra penosa, mas para fazer de todos os homens amigos de Deus. Como não nos escutaram, diz-nos o Senhor, continuai a exortá-los até que encontrem a fé. Eis por que razão São Paulo acrescenta: "Nós somos embaixadores de Cristo; é o Próprio Deus que vos chama através de nós. Suplicamos-vos em nome de Cristo: reconciliai-vos com Deus". (...) A que poderemos comparar tão grande amor? Depois de termos pagado estes benefícios com insultos, longe de nos punir, Ele deu-nos o Seu Filho bem amado, para nos reconciliar conSigo. No entanto, longe de quererem reconciliar-se, os homens deram-Lhe a morte. Deus enviou outros embaixadores para os exortar e, depois disso, torna-se Ele próprio suplicante por eles. Continua a ser Ele que pede: "Reconciliai-vos com Deus". Ele não diz: "Reconciliai Deus convosco", pois não é Ele que nos rejeita; sois vós que recusais ser amigos d'Ele. Poderá Deus ter sentimentos de ódio?
São João Crisóstomo, bispo e doutor da Igreja
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